O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central cortou a taxa básica de juros (Selic) para 2% ao ano, menor patamar desde o início da série histórica, em 1996. Esse novo corte deixou as aplicações conservadoras em renda fixa —como poupança, Tesouro Selic e Fundos DI— ainda menos atraentes como alternativas de longo prazo.

Em busca de rendimentos mais interessantes, aplicadores devem ampliar a migração de recursos para produtos de renda variável, como ações, fundos de ações e fundos imobiliários, dizem profissionais de mercado, ainda que essas opções representem maior risco, em especial em um ano marcado por pandemia e crise.

Produtos de renda fixa em baixa

Produtos que acompanham a Selic ou seguem o CDI, que tem relação com a taxa básica de juros, terão uma variação ainda mais desvantajosa em relação à inflação.

Veja abaixo alguns exemplos, considerando uma aplicação para saque feito após 360 dias de investimento. Nesses casos, investimentos que pagam imposto são taxados em 17,5% sobre o rendimento. Para medir se há algum ganho real, ou seja, acima da inflação, consideramos o IPCA projetado pelo mercado no Boletim Focus do Bancos Central para 2021, que é de 3%. Então, para cada R$ 1.000 aplicados, a inflação deve corroer R$ 30.

Tesouro Selic

  • Valor aplicado: R$ 1.000
  • Rendimento bruto: R$ 20
  • Rendimento líquido: R$ 16,50 (desconta R$ 3,50 de Imposto)
  • Ganho real: perda de R$ 13,50 (desconta inflação)

Fundo DI (com taxa de administração de 0,5%)

  • Valor aplicado: R$ 1.000
  • Rendimento bruto: R$ 20
  • Rendimento líquido: R$ 12,35 (desconta imposto e taxa de administração)
  • Ganho real: perda de R$ 17,65 (desconta inflação)

Poupança nova

  • Valor aplicado: R$ 1.000
  • Rendimento bruto: R$ 14 (70% da Selic)
  • Rendimento líquido: R$ 14 (não paga imposto)
  • Ganho real: perda de R$ 16

Poupança antiga

Quem tem dinheiro aplicado nas chamadas cadernetas antigas, aquelas que seguem as regras válidas até 2012, vai receber um rendimento maior, de 0,6% ao mês mais TR (que está em zero). Então, nessas aplicações, o rendimento anual é de aproximadamente 6% ao ano, dando a cada R$ 1.000 aplicados um ganho de R$ 60, ou seja, o dobro da inflação projetada para 2021.

O problema dessas aplicações é que elas não podem mais receber depósitos. Apenas saques são permitidos. Por isso, quem tem dinheiro aplicado aqui deve preservar ao máximo porque o ganho proporcionado é hoje imbatível.

Bolsa e alguns fundos são opção

Para profissionais de mercado, os investidores precisam diversificar as aplicações se o objetivo do investimento for de longo prazo, com um horizonte superior a cinco anos, pelo menos. Para o executivo da Integral Investimentos, Mauro Rached, o novo corte mostra, de um lado, que a economia está pior, e por isso precisa de mais esse estímulo. Por outro lado, a Selic mais baixa sinaliza que os juros devem demorar mais para voltar a subir —o que é positivo para quem pretende aumentar posições em aplicações de risco.

Muito provavelmente, a tendência da maioria dos investidores de pequeno porte na Bolsa é olhar esse corte de juros pela vertente altista dessa medida.

Mauro Rached, executivo da Integral Investimentos

Segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais representa as instituições do mercado de capitais brasileiro), os fundos de ações e fundos multimercados apresentam este ano até o dia 4 de agosto, uma captação líquida —ou seja, novas aplicações menos as retiradas— de R$ 55,5 bilhões e R$ 56 bilhões, respectivamente. Na contramão, os fundos de renda fixa registram saques líquidos acumulados de R$ 50 bilhões no mesmo período.

“Estamos vendo já há algum tempo o número percentual de pessoas físicas subir muito na Bolsa, mas ainda é um número muito baixo, de 1,1% da população brasileira que investe dinheiro em Bolsa. Nos Estados Unidos, para comparar, esse percentual é de cerca de 50% da população”, disse o sócio da Acqua Investimentos, Bruno Musa.

Foco no longo prazo

Os profissionais de mercado destacam que Bolsa e outros produtos de renda variável, como fundos imobiliários ou fundos multimercados, devem ser vistos como aplicações de longo prazo porque sempre podem apresentar oscilações e perdas no curto prazo.

De fato, em 2020, até o fim de julho, por exemplo, o Ibovespa, principal indicador acionário do país, apresentavam perda de 11%. E para zerar essas perdas, o indicador teria que subir mais 13% até dezembro.

Mas os mesmos especialistas lembram que o Ibovespa vem de quatro anos seguidos de ganhos: 38,9% em 2016, mais 26,9% em 2017, depois 15% em 2018, e ainda 32% em 2019.

Fonte: https://economia.uol.com.br/financas-pessoais/noticias/redacao/2020/08/05/queda-da-selic-faz-investimento-em-renda-fixa-ficar-pior-ainda-que-fazer.htm